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domingo, abril 24, 2011

Entrevista com Renée Castelo Branco

Dois cafés e a conta... por Mauro Ventura

A convite do diretor João Jardim, a jornalista Renée Castelo Branco passou mais de um ano debruçada sobre um tema inquietante. Ela colheu depoimentos sobre relações amorosas contaminadas pela violência. A pesquisa foi feita para o filme "Amor?" que estreou na semana passada e teve recepção calorosa da plateia no Festival de Brasília. 

É a quarta parceira dos dois, após "Janela da alma", "Pro nascer feliz" e "Lixo extraordinário", Ela procurou delegacias de mulheres, ONGs, abrigos. Mas caía sempre no universo de pessoas carentes. 

"Além da dificuldade de se expressar e de refletir sobre o tema, havia fatores extremos, como a penúria e a falta de apoio familiar, interferindo dramaticamente na relação do casal", diz ela, editora-chefe do programa "Sem fronteiras", da Globo News, mãe de Ana (com Pedro Bial) e João e Marina (com José Trajano). 

A solução foi mudar o foco para as classes média e alta. Dos mais de 60 depoimentos, foram selecionados oito, que são encenados por atores como Julia Lemmertz, Mariana Lima e Du Moscovi. "O critério foi escolher os que traziam alguma reflexão sobre o processo de uma relação de amor que entrou num beco sem saída do conflito".

Revista O Globo: Fale das entrevistas que você fez. 

Muita gente falou que o pior às vezes não é apanhar, é ser ignorada. Uma mulher me disse: "Qualquer coisa é melhor que a indiferença". 

O personagem da Lilia Cabral provoca o cara até ele perder a cabeça e lhe dar um soco. Inconscientemente, ela queria que ele se comunicasse com ela. A não ser quando a violência é muito reincidente e perigosa, normalmente a pessoa se incomoda menos com uma pancada do que com a destruição da sua personalidade. 

É quando o outro acaba com sua autoestima, o desmerece. Você é sempre criticado: "Sua roupa está horrível". É sempre o culpado. Conta que levou uma bronca no trabalho e ouve: "O que você fez para merecer?"

O filme aborda gente de classe média e alta. Foi difícil?

Não. Prometemos não revelar a identidade. Uma moça nunca tinha falado sobre o assunto paa ninguém, só para o analista. Ela contou a ele da pesquisa e ele recomendou que ela falasse. Mas levamos muito cano. A pessoa não aparecia no local combinado, ou ligava na última hora desmarcando ou não estava em casa quando a gente batia na porta. Alguns voltaram atrás e falaram.

De que forma participar de "Amor?" mexeu com você?

Não é um filme sobre a violência entre casais ou contra mulher. É sobre a relação, muitas vezes conflituosa, entre casais. Até onde é amor, doença ou obsessão? Mas a gente não julga, não denuncia. É um filme que, se for visto de peito aberto, ajuda as pessoas a se entenderem. São experiências muito mais comuns do que se pensa. 

Você se surpreende de como se reconhece em algumas ou várias das situações. Isso é profundamente perturbador. O filme não tem algoz e vítima. Ele mostra como você também provoca, instiga, empurra o outro para o limite, até que ele faz aquilo que você sabe que ele vai fazer, e aí você se vitimiza. Mas você não está condenado ao desmerecimento e à provocação mútua. Você pode escapar da violência insidiosa, prestando atenção ao que faz, procurando não repetir.

Como foi fazer a pesquisa para "Lixo extraordinário"?

Ficamos PhDs em lixo, reciclagem, aterro sanitário, coleta. Fui dezenas de vezes a Jardim Gramacho. Os catadores não gostam que chame de lixão, é aterro sanitário. E não falam lixo, é material reciclável. E se dizem trabalhadores ecológicos. Por um lado, você aprende a ver toda a dignidade do trabalho deles, mas, por outro, é a dignidade do trabalho deles, mas, por outro, é um escândalo, estão expostos a situação de risco, muitos têm tuberculose, doenças de pele.

E como foi trabalhar em "Pro dia nascer feliz", que mostra a educação brasileira?

O filme abriu um mundo para mim. Fiquei muito chocada com a realidade da educação no Brasil, com a crise de valores muito profunda que estamos atravessando. É um desrespeito dos alunos com eles mesmos, com os professores e com as instituições; dos professores com eles mesmos e com os alunos; e das instituições com os professores e com os alunos. É uma falta de limite e de ética, uma impotência geral. É uma rede de enganos, erros, carências, despreparo. Falta vergonha na cara, de cima abaixo.

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